Dor de Barriga

Informações sobre a dor de barriga

Causas menos comuns da dor de barriga

Com a crescente variedade de estudos diagnósticos, é importante ter em consideração a hemorragia retroperitoneal nos doentes que foram submetidos a punções vasculares recentes utilizando os vasos femorais (cateterização cardíaca, radiologia de intervenção, intervenções de cirurgia vascular) ou a outra cirurgia pélvica ou da coluna. Os doentes podem queixar-se de dor abdominal, na região inguinal ou na região lombar. Sem um nível elevado de suspeição, a hemorragia retroperitoneal pode passar despercebida.

Além disso, deve ser considerado o potencial para um traumatismo resultar numa lesão de um órgão intraperitoneal e em hemorragia. Isto é particularmente importante quando se avaliam doentes idosos, medicados com agentes anti-agregantes plaquetários (tais como a aspirina ou o clopidogrel) ou medicados com agentes antico-agulantes (tais como a varfarina, a heparina não fraccionada ou a heparina de baixo peso molecular). De forma semelhante, os doentes com coagulopatias ou com trombocitopénia apresentam igualmente um risco mais elevado, mesmo com traumatismos relativamente pouco importantes. Pode igualmente ocorrer uma hemorragia retro-peritoneal espontânea nestes indivíduos.

DOENTES REQUERENDO CONSIDERAÇÕES ESPECIAIS

Determinadas populações de doentes requerem uma vigilância especial para o diagnóstico da causa de uma dor abdominal aguda. As grávidas com apendicite podem apresentar-se com uma dor no hipocôndrio direito quando o útero empurra outros órgãos abdominais no segundo e no terceiro trimestres. Os idosos não evidenciam uma resposta inflamatória vigorosa e podem apresentar problemas médicos concomitantes. As crianças mais jovens podem ter dificuldade em localizar a sua dor.

Mulheres em idade fértil

As mulheres com dor abdominal têm um diagnóstico diferencial mais complexo do que os homens. Elas podem desenvolver problemas relacionados com um ovário ou uma trompa de Falópio, por exemplo. Até um terço das mulheres em idade fértil com apendicite são inicialmente diagnosticadas erradamente como tendo uma doença inflamatória pélvica ou uma infecção urinária.

As grávidas com dor abdominal apresentam diversas dificuldades. Além de todas as causas habituais de dor abdominal, elas podem ter localizações atípicas para os problemas abdominais, tal como uma dor no hipocôndrio direito na apendicite. Numa fase adiantada da gravidez, a possibilidade de um descolamento da placenta deve igualmente ser tida em consideração. A dor pode igualmente ser simplesmente devida à gravidez, mas este é geralmente um diagnóstico de exclusão. Existem igualmente preocupações sobre a obtenção de exames imagiológicos que utilizam radiações ionizantes (radiografias ou TACs), embora o princípio geral seja que, se a situação clínica justifica realmente um exame imagiológico específico, os riscos e os benefícios deste procedimento devem ser discutidos com a doente e/ou com a família.

Doentes idosos

Deve ser utilizado um limiar baixo para o internamento de doentes idosos para observação uma vez que eles têm frequentemente apresentações atípicas das situações abdominais. Os problemas médicos concomitantes, tais como uma doença cardiovascular, a hipertensão ou a diabetes, podem colocá-los em risco de muitas situações abdominais significativas. Além disso, os doentes idosos podem ter sido submetidos a intervenções cirúrgicas abdominais prévias, o que os coloca em risco de complicações devido a esses procedimentos. Finalmente, devido às dificuldades no diagnóstico ou na exclusão de uma isquémia intestinal, os indivíduos no grupo etário de idosos de alto risco devem invocar um limiar muito baixo para uma consulta, observação e reobservação cirúrgica ou para o internamento hospitalar.

Nos idosos, a febre não pode ajudar a distinguir as situações que requerem cirurgia daquelas em que isso não acontece. Apesar das taxas mais elevadas de perfuração e de sépsis, a maioria dos doentes idosos com uma colecistite aguda ou com uma apendicite estão apiréticos. A auscultação dos ruídos hidro-aéreos pode ajudar na avaliação de uma dor abdominal. Por exemplo, os doentes idosos com uma dor abdominal e com ruídos hidro-aéreos anormais têm frequentemente uma doença grave.

Crianças

Nas crianças, a dor que é exacerbada pelo movimento ou pela tosse (inflamação peritoneal focal) ou os episódios intermitentes e recorrentes de dor intensa (sugestivos de uma invaginação intestinal) podem indicar etiologias específicas. Classicamente, a dor que precede os vómitos sugeria uma causa mais grave ou potencialmente cirúrgica de dor abdominal. Os vómitos seguidos por dor eram considerados como indicando uma gastroenterite ou uma causa menos grave de dor.

Embora esta premissa possa ter alguma validade, não podemos obviamente confiar nela, devendo a avaliação e o tratamento ser orientados por outros achados clínicos.

Nas crianças com uma causa aparentemente cirúrgica de dor abdominal, como uma apendicite, um dos desafios consiste em obter um exame imagiológico, como uma TAC ou uma ecografia, para confirmar o diagnóstico ou para avançar directamente para uma consulta cirúrgica. Alguns médicos acreditam que é preferível errar para o lado da precaução e obter uma consulta cirúrgica precoce.

Num estudo que examinou a eficácia de diferentes modalidades radiológicas para o diagnóstico de apendicite, qualquer criança com uma suspeita de ter uma apendicite mas que tinha uma observação duvidosa era submetida a uma ecografia. Além disso, era realizada uma TAC em quaisquer doentes com uma ecografia negativa ou com achado indeterminados na ecografia. Na era pré-protocolo, 57% de um total de 920 crianças tinham apendicite e 35% destas tinha uma perfuração. Depois do protocolo ter sido implementado, 78% de um total de 418 doentes tinham apendicite e 15% destes tinham uma perfuração. As taxas de apendicectomias brancas em doentes clinicamente duvidosos diminuíram de 14% antes da implementação do protocolo para 4% depois do protocolo. Nas crianças com menos de 5 anos, os resultados não foram significativos mas, nos doentes com mais de 6 anos, as diferenças foram estaticamente significativas. Assim sendo, foi recomendada a realização de uma combinação de uma TAC e de uma ecografia para avaliar as crianças com uma suspeita de apendicite.